‘Minha ligação com Olavo é imaginação’

Fonte: Valor Econômico

“Boa noite, sou o coronel Mendonça. O ministro já vai atendê-los, um minutinho só.”

Foi dessa maneira que o chefe da Assessoria Especial de Assuntos Parlamentares e Federativos do Ministério da Educação (MEC), Marcelo Mendonça, apresentou-se à reportagem do Valor, que havia agendado na noite de terça-feira uma entrevista com o ministro Ricardo Vélez Rodríguez.

Acuado por uma guerra interna entre militares e discípulos de Olavo de Carvalho, que disputam o poder no MEC e em outros ministérios, Vélez balança no cargo. Sua gestão, com idas e vindas e dezenas de demissões nos escalões mais altos da pasta, tem sido alvo de críticas interna e externamente. A situação chegou ao ponto de o presidente Jair Bolsonaro ter dito que “as coisas não estão dando certo” na Educação.

Sob ataque do guru da nova direita, que o indicou para o cargo, o ministro teve a situação agravada depois da desastrosa participação na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, na semana passada. Na ocasião, ele tomou uma “enquadrada” de Tabata Amaral (PDT-SP), deputada de 25 anos em primeiro mandato.

Uma secretária conduz, então, os repórteres ao gabinete de Vélez. O ministro, nascido na Colômbia e naturalizado brasileiro, está em pé, sorridente, tomando um cafezinho e saboreando uma iguaria brasileira. “Aceitam um pão de queijo?”, oferece.

Ao seu lado, estão um outro militar e um civil: o tenente-brigadeiro Ricardo Machado Vieira, secretário-executivo da pasta, e seu subordinado Rubens Barreto da Silva, diretor de programa.

As companhias do ministro durante a entrevista mostram que, ao menos por enquanto, os olavistas estão perdendo a guerra no MEC. O brigadeiro Machado Vieira, colocado no posto na semana passada, é próximo do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, ministro-chefe da Secretaria de Governo. Não por acaso, Santos Cruz tem sido ultimamente alvo de bombardeio pesado de Olavo no Twitter.

Rubens Barreto, por sua vez, é ligado a Luiz Antônio Tozi. Secretário-executivo de Vélez até 13 de março, Tozi foi demitido após uma campanha de difamação feita por olavistas, que o acusaram de ser “tucano” e não alinhado às ideias do presidente Jair Bolsonaro.

O discurso de Vélez ao longo da entrevista também mostra um alinhamento maior com os militares. Ele diz, entre outras coisas, que o que ocorreu em 31 de março de 1964 não foi um golpe, mas “uma decisão soberana da sociedade brasileira”. E que o regime de 21 anos que o sucedeu não foi uma ditadura, mas “um regime democrático de força, porque era necessário naquele momento”.

O comandante da educação no país prevê que os livros didáticos revisarão “paulatinamente” a maneira como se retrata esse episódio. E diz que cabe ao MEC “preparar o livro didático de forma tal que as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi a sua história”.

Olavo, por sua vez, é relegado a um papel secundário. “O meu nome está mais ligado a ele na imaginação”, diz o ministro. “Porque eu realmente estou ligado à preservação dos princípios da boa gestão.”

Vélez define os impropérios do guru do bolsonarismo contra ele e Santos Cruz como “fenômenos meteorológicos que não atrapalham os rumos”. “Oráculo”, para Vélez, não é Olavo, mas filósofos como Aristóteles ou John Locke, o “pai do liberalismo”.

Leia a seguir trechos da entrevista:

Valor: A gráfica que fazia as provas do Enem faliu. Vai dar tempo de solucionar esse problema?

Ricardo Vélez Rodríguez: Vai dar tempo. Haverá a realização das provas, o nosso estudante não ficará sem as suas provas. Foi um problema econômico da gráfica, mas nós temos já uma série de gráficas que nos prestam serviço caso seja preciso uma reposição.

Valor: O presidente Bolsonaro já disse que quer ver a prova antes de ela ser aplicada. Isso vai acontecer?

Vélez: O nosso presidente está muito ocupado, essa prova é muito longa. É uma coisa complicada. Certamente ele, como bom gestor, está preocupado com a qualidade e com o bom andamento da prova. Nós, como técnicos a serviço dele, vamos realizá-la a contento.

“Não há uma intervenção de militares no MEC. O que existe é uma colaboração fraterna e efetiva”

Valor: O MEC foi a pasta mais atingida pelo contingenciamento, com o corte de R$ 5,8 bilhões, mais de 20% do Orçamento da pasta. Isso preocupa o senhor?

Vélez: Eu como gestor público estou preocupado com o orçamento e com desenvolver políticas públicas que façam com que nosso orçamento seja mantido. Neste momento, todos sabemos, o Brasil passa por dificuldades econômicas. É necessária a aprovação da reforma da Previdência para que haja um desafogo nas expectativas de investimentos no Brasil.

Valor: Isso não mostra que falta prioridade para a educação?

Vélez: Não é minha função julgar as políticas econômicas. Eu reconheço que há um orçamento apertado, mas é com esse orçamento apertado que a gente trabalha. Vamos realizar aquilo a que nos propusemos.

Valor: Como o sr. viu o embate que teve na semana passada com a deputada Tabata Amaral?

Vélez: Eu valorizei muito a figura da deputada Tabata. Uma jovem deputada, idealista, que se compromete com a educação, e isso é muito importante. Eu quero inclusive ter a oportunidade de recebê-la aqui no ministério para dialogar com ela acerca dos nossos problemas educacionais. O diálogo com o Parlamento é essencial.

Valor: O sr. acha que ela foi muito dura?

Vélez: Acho que não. Perguntar não faz mal a ninguém e ter interesse em claridade sobre os pontos da política educacional é legítimo. Me senti perfeitamente à vontade.

Valor: O sr. já a convidou para uma reunião?

Vélez: Ela está já convidada, se ela quiser aparecer por aqui, será uma satisfação. Como é uma grande satisfação para mim dialogar com todos os representantes da situação e da oposição. É importantíssimo escutar todo mundo.

Valor: O presidente Bolsonaro disse que “as coisas não estão dando certo na Educação”. O que não está dando certo no MEC?

Vélez: O que eu gostaria que desse certo seria a gente preencher a contento todos os objetivos que nos traçamos. O MEC não é um clube de futebol, não é uma família. O MEC é um grupo de trabalho, que se fixa em ideias e metas corporativas. Para atingi-las, a gente precisa por vezes mexer no time. Ele [Bolsonaro] é um homem muito aberto ao diálogo e participa muito da vida dos ministérios, se desdobra, e respeita muito nossas decisões e nossas escolhas. Nós temos e tentamos afinar as decisões com as políticas traçadas pelo presidente.

Valor: Houve muita demissão no primeiro escalão…

Vélez: No início, fiz as demissões que administrativamente eram necessárias.

Valor: Mas o MEC teve um índice muito maior de substituições…

Vélez: Nos outros ministérios houve também. É que eles são menores, mas houve sim.

Valor: Mas a crise gerada aqui na pasta foi em função dessas mudanças, reações de grupos…

Vélez: Os grupos de pressão políticas são normais, existem em toda sociedade politicamente organizada. No MEC, nos pautamos por metas, e essas metas são perseguidas via gestão. Quem não se ajusta às decisões tomadas na corporação é naturalmente substituído.

Valor: O MEC está dividido entre olavistas, militares, petistas… Tem mesmo essa briga?

Vélez: Essa briga não existe.

Valor: A nomeação da secretaria-executiva na semana passada deu a sensação de fortalecimento da ala militar. Como foi a escolha?

Vélez: Foi uma escolha minha. O nome do brigadeiro foi levado por mim, consultei com o senhor presidente, com outros assessores.

Valor: Com o Santos Cruz?

Vélez: Com o general Santos Cruz, que é meu amigo. Com ele, compartilho sempre quando quero guindar uma pessoa a uma posição de destaque dentro do MEC. Converso com ele e com o senhor presidente. Ele também aponta dificuldades, coisas que devem ser melhoradas, mas todas as decisões são tomadas em conjunto.

Valor: Muita gente vê uma “intervenção branca” dos militares no MEC. O sr. está sendo tutelado?

Vélez: Não é “intervenção branca”, é colaboração fraterna e efetiva. E o senhor brigadeiro é uma pessoa que trabalha na equipe. Valorizo muito a sua performance pelos cargos que ocupou na Aeronáutica, no Ministério da Defesa. E eu acho que nele terei um colaborador fantástico.

Valor: O presidente já usou o poder de veto alguma vez com o sr.?

Vélez: Que eu me lembre, não. Todas as nomeações foram feitas de comum acordo com o senhor presidente. As exonerações foram decisões minhas de caráter estritamente administrativo e terminaram sendo apoiadas pelo senhor presidente, sem dúvida nenhuma.

Valor: Essas decisões que o senhor tomou aparentemente desagradaram o Olavo de Carvalho. O sr. conversa com ele?

Vélez: Eu conheci o Olavo de Carvalho há mais de 20 anos, porque ele é um pensador que explicita os conceitos fundamentais da ala conservadora da sociedade brasileira. Eu sou um estudioso dos ideais. Tive contato com ele algumas vezes no Rio, mas diria que foram contatos circunstanciais. Ele me indicou para o ministério e meu nome terminou sendo apoiado por outros segmentos da sociedade brasileira.

Valor: Mas ele não é um oráculo para o senhor?

Vélez: A minha política é uma política técnica aqui no ministério. Eu levo em consideração a lógica aristotélica. Essa dinâmica de levar em consideração objetivos e finalidades foi estabelecida por Aristóteles muito tempo atrás.

Valor: Então o oráculo para o senhor é o Aristóteles?

Vélez: Eu tenho vários oráculos filosóficos, entre eles o Aristóteles. Outro grande oráculo da filosofia para mim é John Locke, o pai do liberalismo político.

“O governo militar não foi uma ditadura, mas um regime democrático de força, porque era necessário no momento”

Valor: O Olavo se disse traído pelo sr. e sugeriu que o sr. enfiasse o ministério “naquele lugar”. Como o vê esse tipo de declaração?

Vélez: Eu vejo isso como fenômeno meteorológico. As pessoas, quando se emocionam, quando deixam a razão pendurada no cabide, começam a falar com as emoções e falam coisas que não deveriam ser faladas num debate sereno, num debate racional. Esse tipo de expressão injuriosa não levo em consideração.

Valor: A linguagem dele atrapalha? Só neste mês, ele escreveu 13 vezes a palavra “cu” no Twitter sobre coisas que o desagradam…

Vélez: Esses fenômenos meteorológicos não atrapalham o rumo da nossa gestão, que é uma gestão pautada por técnica e lógica.

Valor: Incomoda ter seu nome ligado ao Olavo de Carvalho?

Vélez: O meu nome está mais ligado a ele na imaginação. Porque eu realmente estou ligado à preservação dos princípios da boa gestão. O que me interessa neste momento é tocar a gestão do MEC para que tenha resultados na educação. Outros barulhos não escuto.

Valor: Está havendo uma limpa de “olavetes” aqui no MEC?

Vélez: Quem são os olavetes? Aqui não temos discípulos, estamos aqui pelo trabalho. Não vejo esse tipo de fenômeno de depuração ideológica, vejo um fenômeno de ajuste de equipe de trabalho.

Valor: Como o sr. vê o 31 de março de 1964 e como acha que ele deveria ser ensinado nas escolas?

Vélez: A história brasileira mostra que o 31 de março de 1964 foi uma decisão soberana da sociedade brasileira. Quem colocou o presidente Castelo Branco no poder não foram os quartéis. Foi a votação no Congresso, uma instância constitucional, quando há a ausência do presidente. Era a Constituição da época e foi seguida à risca. Houve uma mudança de tipo institucional, não foi um golpe.

Valor: E o regime que de 21 anos que se sucedeu? O sr. classifica como uma ditadura?

Vélez: Foi um regime surgido de uma composição e de uma decisão política. Foi um regime em que o Executivo chamou a si mais funções, mas que o próprio Executivo terminou abrindo o jogo político partidário e chamou de volta os que tinham ido embora. Lembre-se da frase do general Figueiredo: “lugar de brasileiro é no Brasil”. Vieram todos, formaram partidos políticos. Ainda dentro do regime militar houve eleições, o governo perdeu algumas eleições, houve pluralismo político partidário. Não enxergo isso como ditadura.

Valor: Então, o sr. acha que foi um regime democrático?

Vélez: Foi um regime democrático de força, porque era necessário naquele momento.

Valor: O presidente falou, nesse caso, em rever a história e corrigir algumas coisas que foram escritas e ensinadas de forma errada. Como isso poderia ser feito?

Vélez: A melhor forma de colocar os elementos fundamentais do nosso ensino da história é a ciência da história, porque a história é uma ciência. Vamos entregar aos cientistas da área a reconstituição desse passado para realmente termos consciência do que fomos, do que somos e do que seremos.

Valor: Qual é o papel do MEC nessa revisão histórica?

Vélez: O papel do MEC é garantir a regular distribuição do livro didático e preparar o livro didático de forma tal que as crianças possam ter a ideia verídica, real, do que foi a sua história.

Valor: Vai haver mudanças em relação a esse capítulo específico da história?

Vélez: Haverá mudanças progressivas à medida que seja resgatada uma versão da história mais ampla. Mas o que nos interessa é como fazemos para levar às crianças o nosso conhecimento, a nossa metodologia, a nossa pedagogia, para que eles sejam plenamente cidadãos.

Valor: A disciplina Educação Moral e Cívica vai voltar?

Vélez: A nossa ideia é que, no ensino básico e fundamental, deveria ser ensinada a antiga disciplina Educação Moral e Cívica. A criança precisa aprender o que é básico para ser cidadão brasileiro. Dentro disso, devem ser desenvolvidos conceitos fundamentais de cidadania, de valores pátrios, das tradições do país. Isso é importante.

Valor: A ideia do sr. de enviar para o MEC vídeos de crianças cantando o Hino Nacional morreu de vez?

Vélez: Eu fiz aquilo e pedi desculpas por ter enviado a questão da filmagem das crianças. Mas, vamos convir, cantar o Hino Nacional é um ato muito bonito. É um hino bonito, patriótico, belo. Vamos ensiná-lo às criancinhas.

Valor: Depois do episódio da escola de Suzano, alguns defenderam que os professores estejam armados na escola. Qual a sua opinião?

Vélez: O que a sociedade quer, o que vai salvar nossas crianças, é a efetivação de políticas reais de segurança pública. Dentre as quais, a adoção do sistema cívico-militar. Não se trata de militarizar a escola nem de armar professores. Consiste em uma escolinha municipal que chama a polícia para exercer as funções administrativas, ficando todas as funções docentes em mãos dos professores. Só com esse fato a paz se instala nas imediações das escolas.

Valor: Ou seja, o senhor é contra armar professores…

Vélez: A solução não é armar professores. A solução é dar segurança para o cidadão. E quem é que dá segurança? Os profissionais da segurança. Essa mágica é constituída pela presença de agentes da lei perto do cidadão.

Valor: Ao defender o modelo cívico-militar, o sr. fez uma comparação com o que Pablo Escobar fez na Colômbia. O sr. acha que foi infeliz?

Vélez: Foi uma comparação ruim, porque lembrei um aspecto ruim. O Pablo Escobar utilizava os campos de futebol para atrair jovens. E para que os jovens não consumissem cocaína, porque era produto de exportação. Mas era ruim, porque Pablo Escobar era um assassino. Então, essa companhia de um assassino não era boa. O que fizeram os prefeitos, depois da morte de Pablo Escobar? Conservaram os campos de futebol. Mas ao redor da escola municipal, que foi reformada, há uma bela biblioteca de primeiro mundo.

Valor: O sr. disse numa entrevista ao Valor que as universidades devem ficar reservadas a “uma elite intelectual”. O que isso significa?

Vélez: A universidade tem que estar aberta a todos os cidadãos brasileiros. Por isso, queremos ter um ensino básico, fundamental, secundário de qualidade. Para todo mundo que quer entrar na universidade poder concorrer em igualdade de circunstâncias. Todos vão entrar na universidade? Não. Pelas estatísticas mundiais, na universidade chegam 50%, 60%.

Valor: O que o sr. acha da política de cotas nas universidades?

Vélez: Acho uma política necessária enquanto a gente não melhorar o nosso ensino básico. É uma solução transitória.

Valor: Apesar das crises e de o presidente Bolsonaro tê-lo mantido na pasta, o senhor está seguro de que vai continuar no cargo?

 Vélez: Olha, eu nunca pedi para ser ministro, estou feliz sendo ministro, estou conhecendo o meu Brasil e prestando um serviço ao país. Eu gosto da função de exercer um ministério. Mas eu também não tenho apego ao cargo. Se o senhor. presidente disser “Vélez, tenho um melhor do que você para comandar a Educação”, eu não tenho nenhum problema. Sou um fiel colaborador do senhor presidente. Enquanto ele me quiser como ministro, estarei aqui.

Valor: Voltando à pergunta: o sr. se sente seguro no cargo?

Vélez: Estou seguro de que com esses indicativos haverá uma resposta positiva para a continuação do nosso trabalho. O futuro a Deus pertence.

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