Perdas reais e perdas ilusórias

Com a queda nos preços das ações nas bolsas de valores no mês de agosto, pipocaram notícias na imprensa falando das perdas financeiras para as pessoas e para as empresas. Algumas manchetes exaltaram as perdas de patrimônio dos aplicadores em ações enquanto outras realçaram a perda do valor das empresas. Há verdades e meias verdades no noticiário alarmista.
Inicialmente, é importante destacar que houve perdas reais para quem adquiriu ações a preços superiores aos preços de revenda. Quem ainda não revendeu suas ações, cujos preços atuais são inferiores aos preços pagos na compra, está contabilizando perda do valor do seu patrimônio, porém, com uma ressalva: se o aplicador não vender suas ações agora, os prejuízos não serão realizados e, caso a bolsa se recupere, as perdas terão sido apenas oscilações de preços, não havendo perda efetiva de dinheiro. Já nos últimos dias de agosto as bolsas retomaram o movimento de alta, iniciando o processo de reversão das perdas potenciais.
No caso da perda de valor das empresas, é preciso entender a questão no seu devido lugar. Quando uma companhia abre o seu capital e vende ações ao público, ela recolhe o dinheiro e o aplica em seus negócios. O acionista sabe diariamente quanto ele obteria caso vendesse as suas ações pelo preço cotado em bolsa. Isto é, existe um mercado secundário, no qual todo dia aparecem interessados querendo comprar ações daquela empresa e, como ela não está atrás de mais dinheiro, esses interessados fazem oferta para comprar as ações possuídas por aqueles que as compraram quando a empresa abriu o seu capital ao público.
A bolsa de valores é o mercado secundário de compra e venda de ações, cujos preços sobem e descem em função da situação da empresa, do cenário econômico e em função, também, da oferta e procura pelas ações daquela sociedade. Isto posto, quando o preço das ações de uma empresa cai, o valor de venda do patrimônio dos investidores naquela companhia diminui, mas a companhia em si não tem perda financeira. Além disso, cabe lembrar que, nos últimos anos, os preços médios das ações subiram mais de 400% e, portanto, somente está com patrimônio menor quem comprou ações a preços maiores do que os preços atuais.
O mercado de ações é o mais eficaz instrumento que a humanidade inventou para promover dois requisitos do progresso: a democratização do capital e a mobilização de recursos para financiar os empreendimentos empresariais. Ingenuamente, por ignorância, é grande o número dos que olham para o mercado de ações e ali enxergam uma trama diabólica para que especuladores demoníacos tomem dinheiro dos incautos. Nada mais errado! Tomemos um caso como ilustração: o sócio de uma companhia que não tem ações em bolsa tem dificuldade em se retirar da sociedade e só consegue sair dela quando os demais donos se dispõem a comprar a parte desse sócio-retirante, ou quando ele consegue vender sua parte para um terceiro interessado em ingressar na sociedade. Nesse caso, o sócio-retirante enfrenta problemas muito mais graves do que o acionista das companhias de capital aberto. Ou seja, ele pode ter que revender sua parcela de capital na sociedade a preços baixos; os sócios ficantes podem não querer adquirir a parte do sócio que sai; ele pode não encontrar terceiros com capital suficiente para adquirir sua parte na sociedade; ou, simplesmente, mesmo os que têm dinheiro podem não ter interesse em se tornarem sócios daquela empresa.
O mercado de ações tem a vantagem de fazer que uma empresa seja capaz de mobilizar grandes somas de dinheiro vendendo poucas ações a milhões de acionistas. É essa possibilidade que democratiza a propriedade dos meios de produção, porque cria uma massa de milhões de proprietários, e dá liquidez aos poupadores, porque eles têm um mercado no qual podem revender a sua parte no capital da empresa. O mercado de ações não é um cassino, não é um antro de luxúria especulativa nem é uma invenção do demônio. Antes é apenas um mercado submetido à lei da oferta e da procura, é uma oportunidade aberta a todos para ganhar ou perder dinheiro e é um mecanismo fundamental do progresso e do bem-estar.
Como subproduto relevante, o mercado de ações promove a melhoria das práticas de gestão, ao submeter os controladores e os dirigentes de uma organização aos imperativos da eficiência, da ética e do respeito ao dinheiro dos outros. Quando os administradores de uma empresa não se comportam bem, o mercado atua como um fiscal rigoroso, impondo, pela queda no preço das ações, que as más práticas não continuem e que seus responsáveis não prossigam com as más condutas gerenciais.

José Pio Martins, professor de Economia e Vice-Reitor do Centro Universitário Positivo - UnicenP