“A dúvida é o vestíbulo pelo qual todos precisam passar para adentrarem o templo da verdade”. Esta frase, de Charles Colton (1825), indica que o homem sábio tem a obrigação intelectual de questionar as suas idéias e crenças, e submetê-las ao exame crítico da razão.
Quanto mais ignorante, maior certeza o homem tem sobre as suas convicções; ele pouco reflete, não sofre com a angústia da dúvida, não indaga sobre a origem das suas idéias e não sabe que praticamente tudo em que acredita provem de algum líder, cientista, pensador ou religioso que já morreu. Um esclarecimento necessário: quando falo em “ignorância” não me refiro à falta de títulos e diplomas; estes não garantem a ninguém a entrada no clube dos sábios. Refiro-me a uma mente fechada e autoritária, na qual não entram idéias novas nem há espaço para dúvidas ou questionamentos. Há homens simples, sem diplomas, que demonstram grande sabedoria de vida; e há homens cheios de títulos acadêmicos que trazem a ignorância entranhada na sua personalidade.
É comum um homem ignorante ter baixa tolerância em relação às diferenças e às idéias contrárias às suas; se ele governa um povo ou lidera pessoas e sendo o ambiente institucional favorável, há uma boa chance de ter impulsos ditatoriais. Revendo os nomes dos maiores ditadores que passaram pelo planeta constatamos que grande parte deles eram homens de baixa cultura e poucas luzes intelectuais. Um líder sábio tem menor ou nenhuma propensão para o autoritarismo; ele exercita a dúvida, questiona suas idéias, lê, ouve e pensa sobre as alternativas. Mesmo nas empresas, o sujeito teimoso, inflexível e que acha estar sempre certo é, no mais das vezes, um tipo sem brilho intelectual, autoritário e longe de pertencer à galeria dos sábios.
O autoritarismo é sempre um escudo para um homem esconder sua fragilidade intelectual e seu fanatismo. É possível que um intelectual se torne fanático e autoritário; mas, nesse caso, geralmente estão presentes outros traços psicológicos que contribuem para tanto. Neste início de milênio, o mundo vem se debatendo com vários focos de conflitos gerados pelo fanatismo e pela intolerância, características estas bem próprias dos que se julgam detentores do monopólio da verdade e em nome das quais matam-se seres humanos por diferenças de raça, de cor e de religião. O sábio, desde que não tenha desvios psicológicos, nunca é fanático e exercita suas crenças intimamente, sem pretender impor aos outros sua forma de ser, de pensar e de viver.
No âmbito empresarial ou político, o tempo todo o líder precisa tomar decisões e agir, o que implica assumir idéias e posições; porém, a maneira como chega a determinadas idéias e posições é o que diferencia um sábio de um ignorante, um intelectual de um inculto, um democrata de um ditador. É desejável que existam mais líderes sábios nos postos de direção nos governos e nas organizações. Todavia, quando a disputa se dá apenas entre ignorantes, qualquer que seja o resultado, um ignorante é que irá conduzir a nação ou a organização. Em um debate, perguntaram-me que qualidades são importantes para o líder. Respondi que apenas duas: ética e sabedoria. Se o líder for ético, ele será honesto e jamais dilapidará os recursos a ele confiados; se for sábio, não será autocrático e tomará boas decisões. O resto é perfumaria.
A ignorância é um inimigo a ser combatido, tanto no plano geral quanto no plano individual, e a arma básica para enfrentá-la é a educação; mas não a educação que apenas treine o homem para o exercício de uma profissão, e sim aquela que o ensine a pensar, a respeitar o semelhante, a viver com ética, a aceitar as diferenças e a ser humilde diante da grandeza do universo. Nesse sentido, a educação tem uma função política: é fundamental para a existência da liberdade, da paz, da tolerância e da confraternização entre as pessoas e as nações. Estes valores precisam existir no coração e na mente dos líderes, para poderem se espraiar entre todos os homens.
O processo educacional, por sua vez, deve ser um plano para a vida toda; e assim tem que ser, pois sabedoria não é algo que se consiga em uns poucos anos de escola. Em verdade, a escola por si só não é condição suficiente para fazer de alguém um sábio; é preciso estudo constante, reflexão, observação, questionamento... e muita dúvida; pois, segundo George Iles, “a dúvida é o início, não o fim, da sabedoria”. Tudo isso tem um preço em termos de disciplina, esforço, dedicação e recursos. Não é fácil, e tudo parece um tanto custoso; mas, como alguém já disse, se você acha que a educação é cara, experimente a ignorância.
José Pio Martins é economista, professor e vice-reitor do Centro Universitário Positivo - UnicenP.
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