NOSSOS HÁBITOS, NOSSAS ALGEMAS - por José Pio Martins

Primeiro, formamos nossos hábitos; depois, eles nos dominam e conduzem nossa vida. A maneira como pensamos, sentimos e agimos é ditada por nossos valores, nossas crenças e nossa estrutura psicológica.

Tenho um amigo, professor Clóvis Rogge, que costuma dizer que nós criamos nossas próprias algemas e delas nos tornamos prisioneiros. Um exemplo é o sujeito que se torna um consumista inveterado e, apesar do caos financeiro da sua vida, não consegue mudar o comportamento. Outro é aquele indivíduo difícil, criador de caso no trabalho, que é demitido de vários empregos pelas mesmas razões e, ainda assim, continua a ter as mesmas atitudes e o mesmo comportamento.

No relacionamento familiar, no ambiente profissional e na vida social, o indivíduo será tão mais bem-sucedido quanto mais ele se tornar um solucionador de problemas e quanto menos for um criador de caso. Embora essa questão seja fácil de entender, o fato é que muitos não conseguem agir da forma certa, porque sua personalidade não é compatível com a “forma certa”. Muitas vezes a pessoa consegue entender intelectualmente o problema, mas não consegue lidar emocionalmente com ele.

Esse tema ocorreu-me em função de uma notícia sobre a senadora Hilary Clinton, pré-candidata à presidência dos Estados Unidos, informando que ela perdeu importantes apoios no seu partido porque ninguém agüenta mais seu autoritarismo e suas irritações. Fiquei imaginando que o destino da nação mais poderosa do mundo pode ser alterado por causa do comportamento e das atitudes de uma pessoa difícil e intratável. Quem imaginou que os líderes do Partido Democrata fossem imunes a questiúnculas pessoais enganou-se redondamente. Muitos dos que apóiam Barack Obama, adversário da senadora, podem estar apenas aproveitando a oportunidade para devolver à Sra. Clinton o tratamento grosseiro que dela recebem. É a natureza humana em ação.

Se a senadora tivesse lido a obra “Liderança Segundo Abraham Lincoln”, talvez ela tivesse refletido sobre o ditado popular “quem bate esquece; quem apanha, nunca”. Lincoln disse que, se você praticar uma liderança ditatorial, que geralmente produz ressentimentos, você deve preparar-se para ser sua própria vítima. É possível que a Sra. Clinton conheça os métodos de Abraham Lincoln, ele próprio um mestre na arte de lidar com pessoas, mas lá está ela, agindo do seu jeito, com sua personalidade difícil. Ela não consegue romper suas algemas mentais e, também por isso, corre o risco de perder a indicação do Partido Democrata para o sorridente, afável e inexperiente senador Obama. Pode ser que ela vença, mas será uma vitória muito mais difícil do que seria caso ela fosse uma pessoa mais tratável.

Recentemente li sobre um dirigente empresarial que foi promovido e, ato após ato, tornou-se um criador de problemas, e o resultado foi desgaste e cansaço nos subordinados e nos superiores. A conseqüência óbvia foi uma demissão rápida. Todos nós, em algum momento da vida, desenvolvemos hábitos evitáveis que nos fazem sofrer e espalham sofrimento aos outros.

Ainda que seja difícil dominar nossos instintos e nossas inclinações negativas, os fatos estão aí, para nos mostrar que, em geral, nossos inimigos estão dentro de nós mesmos, e que vale a pena dedicarmos horas preciosas do nosso dia-a-dia à tarefa de nos educarmos para a evolução e a melhoria constante. Como dizia o sábio filósofo Platão, “a maior vitória de um homem é a conquista de si mesmo”.

José Pio Martins, economista e Vice-Reitor da Universidade Positivo.