A HIPOCRISIA DOS RICOS - por José Pio Martins

A idéia da globalização, tal como a conhecemos atualmente, foi impulsionada após o fim da segunda Guerra Mundial, quando os países ricos exigiam ampliação da abertura comercial, como forma de exportar seus produtos e fazer investimentos no resto do mundo. Os Estados Unidos foram os mais beneficiados na medida em que suas empresas abriam filiais na Europa, no Japão e em outros países, e passavam a exportar seus produtos com maior grau de liberdade. Os americanos usavam dois fortes argumentos na defesa de ampliação da liberdade comercial: a necessidade de reconstrução dos países prejudicados pela guerra e a melhoria da eficiência da economia interna de cada nação.

Com o aumento dos investimentos estrangeiros nos países, surgiu a onda das chamadas “empresas multinacionais”, que contribuíam com a disseminação, por todo o mundo, das tecnologias desenvolvidas nas suas matrizes. A teoria de que ao comércio segue-se o investimento e, junto com este, vão as tecnologias era considerada fundamental para que as nações dessem saltos de desenvolvimento e melhorassem o bem-estar social das suas populações. A globalização se acentuava a partir daí, e as décadas de 1940 até 1970 viram os Estados Unidos fomentando a teoria da abertura, é claro, porque ela beneficiava a grande nação americana.

Chegamos à primeira década do terceiro milênio e as nações se acham às voltas com discussões a respeito de abertura comercial e protecionismo. Os americanos impõem tarifas de importação sobre produtos brasileiros, como suco de laranja e aço; os europeus subsidiam seus produtores rurais e dificultam nossas exportações de soja, milho e outros grãos; o Japão paga sua ineficiente agricultura de arroz para que produzam, mesmo quando poderiam importar esse produto a preços bem mais baratos, e assim o mundo vai vendo os países ricos, outrora defensores das virtudes da abertura e liberação comercial, praticamente defendendo suas práticas protecionistas e antiliberais.

É a hipocrisia dos ricos, sobretudo porque agem dessa forma justamente no momento em que pedem que o Brasil diminua as tarifas de importação sobre produtos industrializados. Ou seja, querem exportar suas manufaturas para o Brasil, mas não abrem seus mercados aos nossos agroprodutos. Os negociadores brasileiros têm se posicionado bem nos fóruns mundiais sobre regras comerciais, sobretudo na Organização Mundial do Comércio, exigindo que sejam removidas as barreiras às exportações de produtos rurais como compensação pela diminuição das barreiras tarifárias sobre nossas importações. Mas os ricos, hipocritamente, relutam em aceitar as mudanças e as negociações pouco têm prosperado.

Felizmente, o Brasil está em posição que permite fazer exigências, pois tem o que dar em troca. Se já tivéssemos reduzido as tarifas sobre importações, não teríamos o que ceder, a não ser voltarmos a impor obstáculos às compras de produtos das nações que se recusam a retirar suas barreiras sobre as nossas exportações, em especial Estados Unidos e países europeus. De qualquer forma, o Brasil tem a obrigação de mostrar, ao mundo, a hipocrisia dos ricos, que pedem liberdade comercial quando ela é do seu interesse e a rejeitam quando é do interesse dos outros.

José Pio Martins, economista e Vice-Reitor da Universidade Positivo.